Faculdade de Medicina da UFRGS

Mario Totta e sua equipe de trabalho

A equipe da Obstetricia da Faculdade de Medicina foi muito numerosa, onde predominavam médicos com Docencia-Livre, sendo o primeiro Elyseu Paglioli em 1925, mas não exerceu a especialidade. Em 1931, Oddone Eugenio F. Marsiaj, foi um dos primeiros assistentes de Mario Totta. Em 1932, Ennio Marsiaj, após a Docencia, entrou no grupo dos assistentes da cadeira. . Em 1935, prestou o exame de Docência-Livre o Dr. Othon Soares de Freitas e em 1947 assumiu a cadeira com o falecimento de Mario Totta. Othon Freitas permaneceu na catedra até 1957, quando se aposentou. Em 1944, Coradino Lupi Duarte tornou-se assistente apos defender tese de docencia. Em 1952, Ervino Jacob Diefenthaler, foi docente e professor da cadeira. Em 1955, Pedro Luiz Belchior da Costa fez docencia e já era auxiliar foi integrado como professor. Após a aposentadoria de Othon Freitas, a congregação deveria escolher um professor substituto, apresentaram-se os Drs. Ervino Diefenthaler, Nilo Luz e Pedro Luiz Costa. Nilo Luz alem de ter o titulo de docente de Ginecologia, fizera Docencia-Livre de Obstetricia no Rio de Janeiro. O assunto da substituição foi muito discutido na congregação. Finalmente os Doutores Eduardo Faraco e Rubens Maciel, fizeram a proposta de votação individual para escolha do futuro professor substituto. Foi aprovado o nome de Nilo Luz por 12 x o. Por alguns anos o Dr. Nilo assumiu e foi até paraninfo de duas turmas de 1970 e 1972. E iniciou o trabalho de organização da Obstetricia no Hospital de Clinicas. Mas não conseguiu os bons grados da direção do Clinicas. Ele então aposentou-se e foi fundar e organizar a cadeira de Obstetricia no Hospital da PUC. Ainda trabalhou na cadeira do Dr. Paulo Padilha Duarte, por muitos anos. Ficou catedrático de Obstetricia da Santa Casa o Prof. Pedro Luiz Costa. Nicanor Letti site: nicanor.letti@terra.com.br

O Prof. Mario Totta e sua Maternidade

Mário Totta, nasceu em 5 de janeiro de 1874 e faleceu em 17 de novembro de 1947, aos 73 anos. Formou-se na primeira turma da Faculdade de Medicina e Pharmacia de Porto Alegre em 1904. Foi o orador da Turma. E o Prof. Olinto de Oliveira o paraninfo. Seus colegas foram: Alfredo Garibaldi, Alice Maeffer, Amaro Lisboa de Souza, Arthur Simeão da Motta, Carlos Emilio Hardegger, Francisco Antonio Rodrigues Salles Filho, João Landell de Moura, Joaquim José de OLiveira, José Flores Soares, Lauro Raphael de Azambuja. Desde a formatura foi um obstetra notavel. Assumiu em 1908 como professor de Obstetricia pois o Prof. Protásio Alves demitira-se devido a crise de 1906, quando o Governo Federal anulara a Ata de punição de cem estudantes por terem ofendido, em passseata pela rua da Praia, os professores que examinaram o doutorando Eduardo Soares de Barcellos. Mario Totta, desde seu inicio solicitava da Provedoria da Santa Casa, para encontrar uma maneira de substituir as instalações de uma pequena sala de nove leitos onde realizavam os partos. Logo conseguiu uma outra sala, para separar as normais das infectadas. Alguns anos depois o seviço se ampliou enormemente, e a maternidade foi transferida para um espaço junto ao Hospital São Fracisco e melhor aparelhada. Sua inauguraçâo foi realizada com a presença do Presidente da República Getúlio Vargas. Relata Mario Totta, "a maternidade a despeito de ocupar uma área relativamente extensa, tornou-se no decurso do tempo insuficiente para sua grandiosa tarefa. Tais razões e ainda a necessidade, pois eram atendidas anualmente, milhares de pacientes. Ademais o Hospital São Francisco deveria manter uma secção autonoma de Partos, tal como já possuiam os dois grandes hospitais de Porto Alegre, o Alemão e a Beneficiencia Portuguesa". Durante muitos meses lutava Mario Totta com a provedoria para iniciar as obras de aumento do Hospital na Esquina, defronte o inicio da rua General Vitorino ou rua da Alegria. Procurava junto aos estabelecimentos bancários tentar recursos para dotar um novo edificio acoplado aos antigos, abrigando a maternidade e outras áreas para atendimento e ensino. Mas quem o ajudou decisivamente foi o interventor-militar no RGS. General Manuel de Cerqueira Daltro Filho, que internou-se no Hospital São Fransisco e foi tratado pelos Drs. Alfeu Bicca de Medeiros e Antonio Saint-Pastous de Freitas, resolveu doar a Santa Casa, para esta finalidade mil contos de reis, da verba da Loteria às casas de Beneficiencia, e mais oitocentos contos de reís, concedidos pela Assembleia Legslativa. Basta dizer que com tal verba foi construido o Pavilhão Daltro Filho. Com a construção do pavilhão a maternidade ocupou dois mil metros quadrados, dividida em 31 salas, das quais 2o destinadas às enfermarias, tem capacidade para alojar 12o pacientes e 50 recem-nascidos. E outros serviços como puricultura etc. O serviço de puericultura pos-natal anexo a maternidade foi dirigido pela sra. Avany Cordeiro de Farias, esposa do substitudo Daltro Filho, que falecera meses depois de fazer a notavel ajuda. Todas as crianças nascidas na Santa Casa são consideradas filhos da maternidade até que façam um ano de idade. Foi remetido em 31 de abril de 1931 um oficio ao provedor da Santa Casa, para a maternidade ter o nome de "Mario Totta", sendo assinado pelos seguintes asistentes médicos: Drs. Elyseu Paglioli, Coradino Lupi Duarte, Aleixo Moreira, Othon Freitas, Carlos Hofmeister, Helmuth Weimann, Darcy Azambuja, Saul Totta, Paulo Oliveira, Luiz Sarmentol Barata./ Nicanor.letti. site nicanor.letti@terra.com.br

Prof. Cesar Ávila

Cesar Augusto da Costa Ávila nasceu em 26 de julho de 1906, na cidade de Lages, em Santa Catarina, seus pais, João Octávio da Costa Ávila e Dna. Maria Siebert, eram membros de tradicional familia lageana. Como ele mesmo afirmou em seu livro de memórias, havia em seu carater um traço de nomadismo, que o levava em busca de terras estranhas, novas paisagens, novas gentes. Entretanto jamais perdeu o forte vínculo que o ligava a sua terra natal, lá retornando sempre que o permitia sua atividade profissional. Ainda jovem - com menos de vinte anos - vai para o Realengo, no Estado do Rio, prestar serviço militar, tendo como seu instrutor o então Ten. Henrique Lott. Em 1925, ingressa na Faculdade Nacional de Medicina, tendo colado grau em 1930. Formado, Cesar retorna à Lages, e contraiu núpcias com a srta. Anita Ribeiro em 1931.Ela tambem filha de tradicional da familia lageana. Tiveram nos anos seguintes em meio a sua intensa atividade de médico, cinco filhos: Cesar, Claudio, Miriam, Clarício e Moema. Em 1959, viuvo, casou-se com Selma Gaertner, gaúcha e psicóloga. No mesmo ano de 1931, Cesar estabelece clinica em Lages, atendendo tambem outras cidades do interior catarinense. Desenvolve intensa atividade profissional nas áreas de clínica e cirurgia geral, sob a sábia orientação do Dr. Cesare Sartori, competentissimo e vivido médico italiano, refugiado no Brasil e radicado em Santa Catarina. Durante doze longos anos, Cesar Avila estuda e trabalha com ânimo incansavel. Anos mais tarde - já reconhecido internacionalmente como cirurgião excepcional, era tambem lembrado por uma capacidade de diagnosticar certamente aurida nos duros anos, entre 1931 a 1943. Mas em 1939, depois de passar algum tempo em Antonio Prado, inscreve-se no concurso de Docência-Livre, da Faculdade de Medicina de Porto Alegre, devido a jubilação do Prof. Nogueira Flores, o primeiro professor da cadeira de "Clinica Cirurgica Infantil e Ortopédica", em novembro do mesmo ano é nomeada a banca examinadora: composta pelos Profs: Luiz Francisco Guerra Blessmann, Homero Fleck, Elyseu Paglioli, Bruno Marsiaj e Almir Alves.Na prova prática em cadaver: Ressecção do joelho. Na prova escrita: Hernia umbelical congênita, a prova didatica, e a defesa de Tése foi sobre: Coxalgia. Sendo aprovado com nota final: 7,2. Em 1940, o Dr. Nereu Ramos nomeou-o interventor no Hospital de Harmonia, SC. hoje Ibirama, alem da atividade médica, escrevia nos jornais de Santa Catarina. Mas em 1943, A Faculdade de Medicina de Porto Alegre, atraves da sua Congregação abre o Concurso de Cátedra para a cadeira de Clinica Cirugica Infantil e Ortopédica, só poderiam se inscrever docentes-livres de todo o Brasil. Inscreveram-se tres docentes: Cesar Avila, Elias Kanan e José dos Anjos Vasconcellos. A Banca Examinadora, foi uma das melhores já apresentadas nos concursos da Faculdade de Porto Alegre. Nos concursos de cátedra pela lei e os regulamentos, são nomeados tres professores de outras faculdades do Brasil e dois da propria Faculdade. Foi assim constituida: Profs: Raul Moreira, Jacy Carneiro Monteiro, Godoy Moreira (SP), Barboza Vianna (RJ) e Achiles Araujo (RJ). Os candidatos foram: Cesar Avila, Elias Kanan e José dos Anjos Vasconcellos. Aprovado: Cesar Avila. Desde então Cesar organizou a cadeira e fez inúmeras cirurgias e estabeleceu residencia em Porto Alegre. Alem da atividade de professor, numa casa na Av. 24 de outubro transformou-a em Hospital de Traumatologia. Mais tarde construiu o Hospital Independencia onde trabalhou por muitos anos. Foi um professor exemplar pelo ensinamento, revulocionou as técnicas cirurgicas. Fizeram docencia-livre na cadeira os Drs. Léo Mabilde e Saul Messias. Em 1954 a Editora Globo lançou seu livro de memórias com o titulo de "Revelações de um Médico",e escrevia artigos no Jornal de Sabado do CP. E dedicou-se a pintura e inaugurou no litoral catarinense novos espaços para viver junto ao mar do que tanto gostava. Faleceu com 68 anos. Nicanor Letti - nicanor.letti@terra.com

Equiparação dos vencimentos dos Professores da FM

Nas duas Faculdades de Medicina da Bahia e do Rio de Janeiro, nos anos 30 do século passado já tinham regularizado sua equiparação com o Governo Federal e eram remunerados pelo Erário Público. A nossa do RGS continuava particular. Mas a Congregação um determinado dia após a Revolução de 1930, reuniu-se para decidir a questão. Foram escolhidos por unanimidade os professores: Antonio Saint-Pastous de Freitas, Alberto de Sousa e Mario Totta. Foi decidido tambem que os professores iriam de avião. Totta tinha medo de voar. Mas converseram e ele aceitou. Mas Saint-Pastous preparara tudo pelo alto conceito que detinha junto aos funcionários do Palacio do Catete. Após falar com Vargas ele passou os papéis para seu secretário, disse para o Dr. Totta, o Sr. foi meu médico numa gripe violenta em 1907, quando era estudante de Direito. E todos comfraternizaram. O auxiliar que examinara o pedido, sugeriu para Vargas solicitar a presença do médico gaucho, deputado federal, para encaminhar o assunto para a Camara dos Deputados, apos isso Vargas prometeu assina-lo e tomar as providencias junto aos Ministérios envolvidos nos pagamentos. E pediram para procurar o Dr. Raul de Bittencourt para receber as instruções para seu trabalho na Camara dos Deputados. Mas foi dificil encontrar o dr. Raul, morava na Ladeira da Ascurra, finalmente de idas e vindas, falamos com o deputado, que ficou honrado com tal incumbencia. Voltamos a Porto Alegre, onde fomos saudados desde então os professores e funcionários foram pagos pela Delegacia Federal. Nicanor Letti site: nicanor.letti@terra.com,/

A Oficialização da Faculdade de Medicina

Mario Tottta, professor da Faculdade de Medicina, recem concursado, catedrático, resolveu ir ao Rio de Janeiro pedir ao Ministro Osvaldo Aranha a oficialização da Faculdade de Medicina de Porto Alegre, pois desde sua fundação foi reconhecida como as faculdades da Bahia e dol Rio. Aranha recebeu-o cordialmente, e ouviou seus argumentos e remeteu-o ao Ministro da Educação Belisário Penna, este mandou-o para o Dr. Aloisio de Castro, Presidente do Conselho Nacional da Educação. Leu o bilhete e disse-lhe ser impossivel de atende-lo pois era inconstitucional. E desarmou o Mario Totta. Voltou para o gabinete do Osvaldo Aranha e contou o acontecido. O Ministro chamou o Luiz Aranha (Lulu Aranha) e lhe disse: Lulu, vai com o Mario ao gabinete do Aloisio e dize-lhe que lavre hoje mesmo o decreto de oficialização da Faculdade de Medicina de Porto Alegre. O professor Aloisio ficou pasmo quando Lulu lhe disse: O Ministro "ordena" que seja lavrado hoje mesmo o decreto de oficialização da Faculdade de Porto Alegre. Aquela ação rápida funcionou. E ficamos sós no gabinete. Depois de algum tempo Aloisio disse: eu não sei redigir o decreto. Vice sabe? perguntou ao Mario Totta, e ele respondeu: eu sei. Pois então dite-o para minha datilógrafa. Ditei, ele assinou e eu retornei ao gabinete de Osvaldo Aranha. Deixa-o aí que eu levarei para o Getúlio. No mesmo dia um telegrama de casa pedia meu retorno com urgencia por problemas na maternidade. Conseguí no mesma noite embarcar sem me despedir do Osvaldo Aranha. Em alto-mar recebi um radiograma : Dr. Mario Totta: Escola oficializada. Por que não esperou, seu fujão? O.Aranha. Depois a chegada em Porto Alegre Recepção na Escola e Banquete no Clube do Comércio, onde foi saudado pelo grande orador Fábio de Barros.
Nicanor Letti - site: nicanor.letti@terra.com/

Professor, a sabedoria de ser amavel

José Paulo Bisol, escreveu este texto notavel sobre o professor, e eu o transcrevo. Aplica-se ao assunto desse blog. - Pode não ser amado mas não pode não ser amavel. Não digo amavel apenas pela lhaneza de espírito, pelo trato ameno, pela agradavel simplicidade; nem o digo estritamente no sentido do digno de amor; digo-o na denotação de, digno ou não de ser amado, o professsor é amavel como portador de uma qualidade que rechaça a possibilidade de indiferença afetiva do educando. Os maus, os secos com suas almas de graveto e folha morta, os amarelos de coração, os isentos por antecipação, os gelados equidistantes, os equipolentes com seu reizinhos na barriga, esses que me perdoem nunca foram professores, só fazem figuração, desenrolando seus conceitos na escola como quem desenrola linguiça no mercado. Não há figura mais petulante, com seu fedor espiritual de naftalina, sua aura de fera assexuada, sua assepsia de intangibilidade, seu mofo de alfarrabio e sua inefabilidade de metáfora conotando que a sabedoria é uma poção milagrosa que se bebe para envelhecer e ficar importante. Para comunicar conceitos, teorias, esquemas, teoremas, estruturas, equações, diagramas, o melhor professor é o eletronico; para armazenar conecimentos, a melhor memória é a do computador; para mostrar o real, o melhor veiculo é o cinema e o televisor, e assim por diante. A única coisa que a máquina não ensina melhor que o homem é ser homem hoje, definitivamente, um professor, se é professor, é professor de felicidade. O grande professor do comportamento maquinal do homem é a máquina, e é por isso que o nosso mundo é mesmo um mundo cibernético, e o grande professor do comportamento humano do homem é o homem. Eu disse: o homem, não o narciso das citações em lingua extrangeira, não o que precisa de um rolo de papel higienico para desfilar todos os seus títulos curriculares, não o que suga os cofres do povo em viagens de estudos que só são viagens de estudo porque sem o ser seriam deliciosos ´passeios pelo mundo. Não conheço parasita mais deletério que o professor bem visto pelos poderes instituidos, que circula de bolsa em bolsa pelo mundo inteiro e jamais ensina nada, mesmo porque quando se relaciona com alunos brasileiros, não perde ocasião de lhes fazer compreender que seus cérebros são primitivos e não passam de sacos de serragem. Professor mesmo é o professor de felicidade, O resto a circunstancia ensina melhor. "A circunstancia só nos ensina como se trabalha uma circunstancia para torná-la mais docemente afeiçoada ao homem. Digo circunstancia para significar a natureza e o que o homem, pela cultura, lhe acrescentou. E digo que o professor é professor na medida em que sabe desafogar os afogados, desobumbrar os obumbrados, orgulhar os humilhados, remodelar os esmagados. Sim, admito o conceito, trata-se de modelar mas nunca modelar para a ideologia, nunca modelar para a mecanica da ordem estabelecida, nunca modelar para a adequação às estruturas que não são eternas. Tudo isso é eletronico, é cibernético,e, se for o caso de uma aprendizagem indispensavel, tudo bem, acionem os robos e toquem pela frente, nem sou contra, pelo amor de Deus. Sou contra o professor que ensina o medo, a submissão, o conformismo; o professor que comprou a verdade absoluta, o sacralizador da obediencia, o santificador do passado, o glorificador das arcádias, o adulador dos poderosos e o ruminador da prudências e das covardias. Professor para mim é parteiro; desentranha o homem, arranca o homem das entranhas, obriga-o a espelir-se da caverna. Não existe educando em razão de uma clausura. Alguma coisa o deixa de lado de fora da vida. O drama do educando é criar-se as condições para alcançar a vida. Alguma coisa o retém no escuro estranhos vínculos o prende a inércia, ressequidas estopas entopem sua garganta e obscu ras chuvas de óleo empastam suas asas e impedem seu võo. Todo educando é um homem escondido, um ser com medo de emergir, um mágico aterrorizado com a idéia da impossibilidade de ativar os seus poderes, uma sede que não sabe beber, uma grandeza indeflagrada. Não importa quais sejam os grilhões, mas seu tornozelo foi aferrado à rocha do horror por uma ou duas entre milhares de razões; ou porque algum autoritarismo paterno o esmagou, ou porque algum racismo peçonhento o marginalizou, ou porque a vergonha de uma história familiar tripudou sobre ele ou porque a pobreza o aviltou, ou porque o sexo o desonrou, ou porque a competição o apequenou, ou porque lhe faltou afeto e agora lhe falta confiança, ou porque na hora crucial uma gargalhada mofou dele, ou porque vivem dizendo que o irmão é mais inteligente, ou porque não consegue vislumbrar com nitidez a virtude materna, ou porque lhe ensinaram a comparar e invejar, ou porque não lhe permitem estupidamente ser o segundo, ou porque lhe introjetaram reliogiosamente não sei que súcubos ou íncubos, conforme o sexo, e assim por diante eis aí a etiologia psicanalitica que é mesmo um nunca acabar. O professor deve desfolhar essas sombras. Gastar todos os algodões do afeto limpando o oleo das asas. Desenferrujar as ferragens para restabelecer as aberturas. Repassar o trator sobre as estradas em desuso. Aliviar das estopas as gargantas. Acender as lâmpadas, filtrar as águas, espancar as nuvens, desanuviar os horizontes. Dizer-lhes, palpitando, com a voz embargada pela verdade pessoal, que é realmente importante ser homem, que é absolutamente gostoso estar no mundo, que as coisas são surpreendentes, que os homens são fabulosos, embora as aguas sejam turvas, embora as dores geram gritos, embora o amor sangre sob a crueldade, embora a miséria material e moral seja intorelavel. Não, o professor não diz a vida. Isso é para conferencista insípido e furungador de arquivos. O professor não diz para o aluno, olha aqui, essa é a vida, toma-a entre as mãos e converte os possiveis que estão ao teu alcance em realidade: não, o professor não diz a vida nem a vive como se devesse ser o exemplo o padrão existencial. Nada disso. O professor faz a vida. É o seu dever de raiz, fazer viver a classe, viver a classe e fazer o aluno vive-la não como classe mas como vida convivida.Agora achei, é isso aí, o professor mesmo faz a vida do educando conviver com a sua, faz de sua vida um tronco, um feixo luxuriante em torno do qual se desdobrem as vidas compungidas de seus alunos. Ele chega e não pesa, é gesto e ensina a voar. Ele chega e abraça e vai dissolvendo a distancia. Ele chega e dança e se faz a alegria de andar lado a lado com os outros. Ele chega e sua voz derrama sonatinas nos silencios. Ele chega e é óleo alcanforado, é impulso para os tímidos. Sua disciplina não é o silencio é o dialogo, sua, seriedade não é rictus, é o sorriso; sua lição não é o conceito, é a vida.A vida e sua beleza, a magia. A vida é sua pungencia, e sofrimento. É por isso que eu digo, o professor pode não ser amado mas não pode não ser amavel. Nicanor Letti site nicanor.letti@terra. com/

A Solidão dos que caem -Luiz Giacobbo

Vez por outra, tomamos conhecimento, particularmente ou através da mídia, de pessoas que estiveram bem na vida e das quais hoje pouco ou nada se fala. Aparentemente ricas e felizes, gozavam de prestígio. Cortejadas e badaladas, tinham os seus nomes constantemente nas colunas sociais, De repente sopraram os ventos do infortúnio. E os dias de glória deram lugar a momentos de dificuldade e, até mesmo, de solidão. Quando tomo conhecimento de algum fato semelhante, me lembro de uma sentença apropriada a tais situações: "Há sempre solidão em torno de quem cai".E o cair não vale apenas para quem foi porventura, mal de negócios. Cai o politico, que não se reelege. Cai o artista que não sobe mais ao palco ou deixa de aparecer na televisão. Cai o desportista quando pendura as chuteiras ou a raquete. Cai a máscara da vaidade, da presunção, do orgulho. Cai o dia para dar lugar a solidão da noite. Caiu Jesus por tres vezes ao peso da cruz, sem que aparecesse um amigo, sequer, para ajudar a carregá-la. Caímos nós todos quantos, chegadoss à velhice, já aposentados, olhamos em derredor e, praaticamente não conhecemos mais ninguém. Nem ninguém nos conhece mais. Ou finge não nos conhecer. Bem, voce não tem mais poder. Não pode mais distribuir favores. Servir de pistolão. Dar emprego. Você, embora não se tenha dado conta, é um cidadão comum. Como milhares de outros que transitam pela rua. Acode-lhe , então, um sentimento de frustração. De vazio. Finalmente, caiu o pano. Que fazer?....Cair em depressão? Não. Chega de queda, É hora de dar a volta por cima. E tornar ao que realmente tem valor. À família. Aos amigos de verdade. Às coisas simples e boas da vida. Que não custam nada e dão tanta satisfação. Sobretudo voltar para alguem de quem você, talvez, estava esquecido. Deus. Voltar, como disse o Rei Davi, para Deus que alegrou sua juventude. Você se sentirá, então, rejuvenescido. Deixando, sem ressentimentos, que outros subam ao palco. E desfilem. Afinal (que bom), voce agora é só espectador. Nicanor Letti -site nicanor.letti@terra,com.

A Selva do mundo acadêmico- C.Steinberg

Depois de passar cinco anos na elevada posição de professor efetivo de uma universidade de ´prestígio, não consigo entender por que os meus ex-colegas da industria encaram com inveja a minha nova ocupação. A maioria deles aplaude a "coragem" que tive de abandonar um cargo lucrativo de executivo, e lamenta não ter fibra para sair da corrida de ratos, em troca dos bosques tranquilos de Academo. Asseguro a esses colegas que sua idéia de juma universidade pouco se parece com a realidade, e a noção de que encontrarão tranquilidade no mundo academico é um completo engano. Não se deve dar ouvidos as historias sobre punhaladas nasádico costas em Madison Avenue.São uma sopa rala em comparação com o caldo de feiticeiras que os professores sabem preparar na atmosfera enganadoramente amena do campus. Em suma o mundo academico pode ser uma selva mais aterrorizante do que a verdadeira selva, onde os predadores matam por uma necessidade natural de alimentar-se. O pessoal academico em ação tem um instinto para atingir a jugular que é movido pela combinação mortifera da ambição implacavel com o puro e simples prazer sádico e malévolo. A demolição de uma tése ou da reputação de um colega consome uma quantidade enorme de tempo e energia que poderia ser dedicada ao cuidado dos interesses próprios ou (pensamento atroz) ao atendimento dos estudantes. Essa selvageria sem remissão é acompanhada por um clima de terror, que se não é produto de uma imaginação neurótica, vem imposto de fora pela constante pressão para completar o doutorado e publicar uma tese, dentro de um limite definido de tempo. Reitera-se com frequencia que o malogro na execução de ambas as tarefas resultará na perda do emprego. Não importa que a vitima seja um professor dedicado. Sem a efetividade (conceito correspodente a nossa antiga cáttedra) não ha segurança e a lei irrevogavel é "para cima ou para fora". A fim de evitar esse holocausto a solução é publicar, seja o que for. Se for consesgujida uma reimpressão pode-se dizer que estamos salvos. Quase tão importante quanto à publicação é ser membro de uma das várias comissões que proliferam por todos os lados. Ha uma comissão para cobrir toda e qualquer possibilidade lógica que possa surgir. Embora pouco realizem, atendem a varias finalidades uteis. Ser membro, uma oportunidade de serviço necessaria para avançar na carreira. As comissões satisfazem os egos famintos de poder. Acima de tudo, constituem uma maneira conveniente de pôr de lado os problemas durante periodos indefinidos evitando tomar decisões. Por estranho que pareça, durante cinco anos pouco ouvi falar sobre as necessidades dos esudantes. Ensinar e aprender são coisas raramente mencionadas. Ao contrário, a questão candente é, em geral, a que envolve ação politica contra os malfeitos - reais ou imaginários da administração. Essa é a inimiga e o alvo especial dos professores que operam por trás do santuário permanente da efetividade. Quando a administração enfrenta um probleema, ela é autocrática e má, mas quando evita faze~lo é pusilanime. Como professor efetivo em plena efetividade, consideram~me feliz por ser imune a tais pressões. Na verdade, nenhuma corporação de negócios pode gabar-se de ter uma autoridade executiva sequer remotamente comparavel em arrogancia e poder à do professor efetivo. Em vista disso, muitos dos meus sacrossantos colegas desprezam totalmente os seus pares, monstram-se autocráticos com os estudantes e tendem a gastar a maior parte do seu tempo com projetos proprios ou atendendo consultas de fora. Snow disse, certa vez que o mundo academico era uma comunidade de "estranhos e de irmãos". Na verdade, a descrição cabe melhor `hierarquia executiva das corporações. Apesar da luta pelas posições, apesar da incrivel capacidade que alguns tem de serem bem sucedidos sem realmente fazerem esforço, os homens da organização corporativa tem um senso de lealdade e obrigação que revela um instinto moral. É um profundo choque descobrir que na acadenia a ética e as obrigações não passam de coisas....acadêmicas. Na desesperada necessidade de publicar ou perecer, na luta selvagem pela efetividade, forma-se uma combinação letal de ambição e malicia que passa por cima dos estudantes e degrada a ideia do que uma universidade deveria representar. É por isso que concito os meus ex-colegas a aferrarem-se a seus postos de executivos, por mais precários que sejam. A grama não é mais verde nos jardins de Academo, e a urtiga pode ser realmene venenosa. Nicanor Letti site: nicanor.letti@terra.com.

A cátedra de Urologia da FM da UFRGS

O primeiro catedrático de Urologia foi o Dr. Homero Kroef Fleck, formado na Faculdaade de Medicina e Farmácia de Porto Alegre em 1926. Foram seus colegas Adalberto Saldanha Simões, Antonio Bottini, Antonio Peyrouton Louzada, Arthur Carlos Kliemann, Clovis Itaqui Trindade, Doris José Schlater, Euclydes dos Santos Moreira, Francisco de Paula Ferreira da Cunha, Galeno de Queiroz Gomes, Gastão Gonçalves Lopes, Henrique Estacio Fischer, José Ferreira da Silva, Luiz Gabriel Fayet, Norman Sefton, Oddone Eugenio Frederico Marsiaj, Oscar Telles Ferreira, Wolfram Metzler.Foi paraninfo da turma o Prof. Eduardo Sarmento Leite da Fonseca. Homero Fleck nasceu em 27.06.1903. Era filho do cel. Theobaldo Fleck, um borgista ex-prefeito de Taquara, e de Avelina Fleck. Foi casado com Maria de Lourdes Bica de Medeiros, filha única do médico Alfeu Bica de Medeiros. Sua esposa lhe sobreviveu. tiveram tres filhos: o médico Alfeu Medeiros Fleck, Gilberto M. Fleck que faleceu com 28 anos, e Maria Luiza casada com Theodoro Saibro. Homero Fleck nasceu em 27.o6.1903. E ao cursar a Faculdade foi interno das enfermarias de Sarmento Leite e de Protásio Alves. Esteve no Rio acompanhando o Prof. Brandão Filho nas suas cirurgias. Viajou tambem a Paris, Berlim e Viena nos serviços de urologia dessas capitais. Em 1932 submeteu-se ao concurso de Docência-Livre de Urologia. A banca foi composta de: Guerra Blessmann, Martim Gomes, Frederico Falk e Diogo Ferraz. E foi aparovado em todas as arguições. Dedicou-se muito ao estudo da Tuberculose Renal. Em 1935, foi relator do tema Insuficiencia Renal na cirurgia urinária. Quando o interventor Daltro Filho, , teve um tumor na bexiga, foi operado com sucesso por Homero Fleck, e foi atentido em conjunto com os Profs. Alfeu Bica de Medeiros e Antonio Saint-Pastous de Freitas. O intenventor trocou o pagamento pela construção do Pavilhão Daltro Filho da Santa Casa. Foi inaugurado em 1942 e servia de localização de vários serviços e dobrou a área de ensino médico para a Faculdade de Medicina. Portanto, O Instituto Anatomico em 1909 e 1942 a Santa Casa, permitiu aumentar as áreas de ensino. Este último pelo serviço de Homero Flek e dos clinicos. Foram seus assistentes na Urologia: o Dr. Luiz Sarmento Barata, Alberto Vianna Rosa, Gildo Russowski, Dante Westphalen e Carlos M. de Assis. O chefe de Clinicas era o Dr. Adayr Eiras de Araujo.Homero Fleck foi um dos mais dinamicos presidentes do Sindicato Médico. Em 1935 a Urologia abriu o concurso para docencia livre. Em 3 de dezembro de 1935, apresentaram-se os Drs. Luiz Sarmento Barata e Adayr Eiras de Araujo, a banca foi composta: Martim Gomes, Homero Fleck, Huberto Wallau, Argemiro Dornelles e H. Varnieri. Foram ambos aprovados. Após o falecimento de Homero Fleck foi aberto concurso de títulos para professsor interino. A Congregação julgou os titulos, e apos o parecer do Prof. Jacy Monteiro não aceitou os de Alberto Rosa. E a contestação de Rosa em 1947 não foi acolhida. Alberto Rosa fizera docencia em 1947. Finalmente se realiza a abertura para o concurso de cátedra em 19 a 23 de agosto de 1957. Com candidato único o Dr. Luiz Sarmento Barata. A banca escolhida pela Congregação foi: Jacy Carneiro Monteiro, Cesar Augusto da Costa Avila, Alcindo Figueiredo Baewe, Alvaro Sant'Anna, Arminio Sala Meda. O candidato foi aprovado com média 8.4. Foram docentes-livres da Urologi a os seguintes médicos: Thirso dos Santos Monteiro (1954), Rubem Knijnik(1956)Oscar Paulo Rheigantz Pernigotti(1959),Walter Jose Koff(1976), Jorge Alberto Amaral Isaacson./O prof. Barata foi tambem o primeiro diretor do Pronto Socorro. NicanorLetti. site: nicanor.letti@terra.com




A estratégia de Sarmento Leite

Sarmento Leite falava pouco, mas agia no sentido de ter a última palavra, principalmente nas reuniões da congregação da Faculdade, onde se misturavam positivistas, antipositivistas, ateus e catolicos. Quando a discussão estava à deriva ele sempre usou a dissimulação honesta. Ela é a habilidade de não fazer ver as coisas como são. Simula-se aquilo que não é, dissimula-se aquilo que é. Segundo Torquato Accetto. Simula-se a esperança e dissimula-se a dor. Bastará discorrer sobre a dissimulação de modo que seja tomada em seu sincero significado, não sendo outra coisa dissimular senão um véu composto de trevas honestas e decoros forçados, de que não se forma o falso, mas se dá algum repouso a verdade, para demostra-la a seu tempo; e como a natureza quis que na ordem do universo existissem o dia e a noite, assim convem que na esfera das obras humanas exista luz e sombra, o procedimento manifesto e o oculto, conforme o curso da razão, que é a regra da vida e dos acidentes que nela ocorrem. Portanto, Sarmento Leite fazia o que era necessário, e sempre o fez, e sua verdade esta aí, feita, refeita e funcionando para o bem do povo. Identificava-se pela humildade, mas de olhar cintilante e de uma ironia fina. Nasceu em 7 de Abril de 1868. Com 17 anos, já estava no Rio fazendo os preparatórios para ingressar na Faculdade de Medicina. Era o ano de 1885. Agitava-se a sociedade com a Lei da Ventre Livre, era um ato da Camara, notavel, mas a votação foi de 65 votos a favor e 45 contrários. Cursou a Faculdade de 1885 a 1890, Era diretor da Faculdade o famoso Dr. Vicente Candido Figueiredo Saboia. Depois foi único barão do Império. Em 1871 era o mais famoso cirurgião que passou pela Faculdade do Rio. E Sarmento estava lá, vendo-o de perto. Em 1879 estabeleceu o ensino livre convencendo o Imperador. Foi diretor por oito anos e transformou a Faculdade do Rio, igualando-a as européias. E Sarmento estava lá. Em 1885, o Ceará e o Amazonas declaram finda a escravidão e libertaram os escravos. Em 1885, A Lei Saraiva-Cotegipe, ou lei dos saxagenários, projeto de Ruy Barbosa, libertou-os. E 1888 - 13 de maio a Princeza Izabel assinou a Lei Aurea libertando os escravos. E Sarmento estava lá. Alem disso Saboia separou por lei do imperio as cadeiras de clinica das cirurgicas. E todos os professores catedráticos fizeram concursos. Foi uma revolução. Desdobrou as cadeiras de Anatomia, e de Anatomia Patologica e criou novas disciplinas: Obstetricia, Psiquiatria e Dermato-Sifiligrafia. Entraram assim na Faculdade do Rio os famosos professores: Cipriano de Freitas, Hilario Gouvea, Erico Coelho, Martins Costa, Lima Castro e Barata Ribeiro. Em outubro de 1884 apresentou os novos estatutos da Faculdade e Sarmento Leite estava lá. Ele viveu t0das mudanças, fez inumeros companheiros que auxiliaram-no, como Aloisio de Castro, na organização do ensino em Porto Alegre. Claro, muito claramente Sarmento Leite estava preparando o que realizou em Porto Alegre. Foi sua estratégia. Quem não sabe dissimular não sabe reinar. Nicanor Letti-´site nicanor.letti@terra.com.

A tése de Eduardo Soares de Barcellos (1906)

Durante a Presidencia de Afonso Penna (1906-1909), com o vice Nilo Peçanha, aconteceu um fato fundamental na consolidação e reconhecimento da Faculdade de Medicina e Farmacia de Porto Alegre. Na época exigia-se uma tése médica, escrita pelo doutorando e defendida perante uma banca nomeada pela Congregação. Os médicos formados em 1906 foram: Antonio Castro Pinto, José Hecker, Julio Hecker e Ulysses Pereira de Nonohay. Mas o outro aluno: Eduardo Soares de Barcellos teve sua tése reprovada por quatro a um. O aluno não concordou com as notas da banca e interpos um recurso à Congregação. Recebeu o apoio imediato dos Profs. Sarmento Leite, M0ysés Menezes e Mario Totta, afirmaram que a tése era adequada. Mas o delegado fiscal afirmou que tudo ocorreu normalmente durante o concurso e não cabia recurso à Congregação. Os alunos revoltaram-se e, em passeata até a praça da Alfandega gritavam morras à banca, e após o comicio emitiram nota de repúdio à banca. A Congregação reuniu-se novamente e submeteu os alunos a responderem quesitos na Diretoria da Faculdade, com a unica finalidade de localizar os resposaveis pelos acontecimentos. Compareceram 114 alunos, mas 100 responderam não conhecer os fatos alegados. A Congregação reuniu-se novamente e suspendeu por um ano os 100 alunos, Sarmento Leite e outros professores votaram contra a decisão da Congregação. A maioria dos alunos viajaram para o Rio para concluir os estudos, pois era permitido na época. E Sarmento Leite abraçado com Reynaldo Geyer foi até o navio se despedir. Sarmento e familiares dos alunos suspensos, impetraram ao Ministério da Justiça e Ensino da República sobre os fatos. E aleardaram que a penalidade foi grosseiramente urdida pelos positivistas. Semanas após estes fatos, que eram divulgados e discutidos por toda a imprensa, o Ministro baixou uma decisão, anulando as Atas da Congregação. Foi festa e festas em Porto Alegre. Eduardo Soares Barcellos no ano seguinte, defendeu a tése e em 1907 somente dois doutoraandos se formaram: Catharino Raphael de Azambuja e Eduardo Soares de Barcellos, que foi exercer a profissão em São Francisco de Assis. E a Faculdade com este ato de intervenção ficou sob o manto protetor da Governo Federal, e o borgismo e seus inimigos sentiram que era uma entidade para ficar. Foi a partir dessa atitude que Sarmento Leite lutaria sempre protegendo os alunos e a Faculdade, até tornar-se diretor em 1915. Nicanor Letti- site: nicanor.letti@terra.com.br

O Dr. Luis Francisco Guerra Blessmann

O dr. Guerra Blessmann, professor de cirurgia, discipulo do grande mestre Carlos Wallau, nasceu em 10 de setembro de 1891, em Alegrete e, após o ensino secundário em Porto Alegre, prestou exame na Faculdade de Medicina e Farmacia de Porto Alegre em 1907. Seus colegas foram: Alcides Moreira Pereira, Alexandre Frederico Bernardo Snel, Antonio Godolphim, Arturo Greco, Augusto Etzberger, Ernesto Werna Coelho, Florencio Carlos de Abreu Pereira, Francisco José de Castro, Jacintho Godoy Gomes, Landerico Teixeira de Magalhães, Luiz Henrique de Souza Lobo, Ramiro Marques D'Avila, Renato Rodrigues Barbosa e Walter Hugo Castilho. Foi a oitava turma da Faculdade de Medicina e Farmacia. O paraninfo foi o Prof. Serapião Mariante. Blessmann apesar de ter sido um dos vinte escolhidos por Sarmento Leite para fazerem concurso e serem professores como: Elyseu Paglioli, Bruno Marsiaj, Ney Cabral, Raul Pilla. Pereira Filho, Walter Castilho e Raul Di Primio. Blessmann não gostava e até se opunha estrategicamente nas reeleições de Sarmento Leite pela Congregação.O velho já estava velho, era o momento de mudar. Não tinha mais receio de se opor a Borges de Medeiros e ao seu positivisto decrépito. Raul Pilla estava ao seu lado e tambem Aurélio Py e Annes Dias.Todos os tres aderiram ao Partido Republicano Liberal e foram deputados estaduais nas eleições de 1934, Blessmann foi o presidente da Assembléia. E presidiu a sessão quando o coronel Figueiredo, apresentou a Ata da Paz de Pedras Altas, terminando a Revolução de 1923. Blessmann foi tambem o grande protetor da fundação do Laboratorio da Faculdade, o primeiro de Porto Alegre, fora fundado logo após o retorno do Rio de Janeiro do Dr. Reynaldo Frederico Geyer que sabia executar o Wassermann, e Blessmann conseguiu fazer sua tese de cátedra "Sobre o complemento". Em 1937 Vargas fechou as Assembléias. Antes da Revolução de 30, 1928 fora eleito Presidente do RGS. E escolhera o Salão Nobre da Faculdade para a posse. Em 1931 foram para o Rio o prof. Luiz Guedes, e outros e entraram em contato com os gauchos que acompanhavam Vargas: Osvaldo Aranha, Mauricio Cardoso e outros e elaboraram a Lei 20931 (11.01.1931), regulamentando a profissão médica no Brasil, ainda em funcionamento, e fechava a Escola Medico-Cirurgica. Foi com esta lei que o Sindicato Médico, fundado em 31, acabou com o charlatanismo estrangeiro no RGS. Blessmann voltou para a direção da Faculdade e lá permaneceu até 1955. Blessmann perdeu a essposa ficou viuvo. Do consórcio com a Sra. Maria Vianna teve os filhos: Julia B. Berta, Gelsa Blessmann Coelho Borges e Jorge Olavo Vianna Blessmann. Em 1936, o Ministério da Educação enviou ao RGS. a Srta. Elza Duque Estrada, técnica em escrituração que organizou todo o arquivo da Faculdade, depois casou com o Dr. Blessmann. Foi na sua administração que foi fundado O Curso de Enfermagem. Tambem aumentou a Faculdade e construiu a atual sede do Centro Academico. Apos o falecimento de Blessmann sua esposa doou, por meu intermédio todos os seus arquivos pessoais. Nicanor Letti. site: nicanor.letti@terra.com




O Prof. Martim Gomes

Martim Gomes, nasceu em Quarai em 23.11.1884 e faleceu em 07.02.1979, foi professor de Ginecologia. Formou-se médico em 1908, na Faculdade de Medicina e Farmacia de Porto Alegre. Foram sseus colegas: Alcides Leiria, Amaro Joaquim Teixeira, Antonio da Silva Froes, Henrique D'Avila Ripper Monteiro, Ivo Affonso Corseuil Junior, João Manoel Ramos, Júlio De Souza Velho, Leopoldo Pires Porto e Plinio da Costa Gama. Foi a quinta turma formada pela Faculdade de Medicina. No "Panteão Medico Riograndense" em 1943, Martim Gomes no primeiro artigo, de apresentação, escreveu sobre a situação médica no RGS. A leitura é uma análise " psicanalítica", da situação dos trabalhos médicos daquela epoca. Desde 1841 a Câmara Municipal reconhecia que algumas pessoas curavam e outros faziam cirurgia e as boticas estavam sempre abertas. Tudo estava na lei. Mas a lei era cega e dura, e no sertão desértico , inhóspico, sem camaras para fazer diplomas e perniciosa por inflar as vaidades apechecadas, e, portanto perigosas. Entretanto, quando tudo ia assim naturalmente segundo as leis do bem e do coração, começou a surgir uma complicação escabrosa; começaram a descobrir de novo o Brasil, depois de 1889, o Rio Grande. Os viajantes diplomados de médicos, de enfermeiros mal farejavam esta terra gaucha, escreviam aos amigos de todo o mundo, chamando-os, porque aqui cada qual podia fazer a América e voltar com a bolsa cheia. O Rio Grande do Sul era o paraiso. Idéias avançadas. Lances geniais da filosofia e da politica, concretizada numa realidade única, para abolir esse cancro que é o monopólio, e a intangibilidade fanática da lei, a qual, para não ferir os principios da liberdade sagrada, não se tinha a liberdade de apreciar, discutir, ou considerar. Essas correntes de opinião, aforçuradas no ganha-pão eleitoral, foram finamente percebidas´pelas argutas, capacidades do estrangeiro sedento de ouro e de embuste. Muitos ingressaram na chamada politica. Ingressaram porque ja não lhe bastava descobrir este pedaço de Brasil. Sentiam uma generosa quasi heroica vontade de conquista-lo, domina-lo. O jeca sorria com desprezo, assuntando. O gaucho olhava com desprezo aquelas arrogancias apressadas, e continuava sonhando a paz dos seus inconscientes ideais de nobreza, do seu generoso respeito à liberdade e ao espirito de seus semelhantes. Esta linguagem era típica de um homem que pensava alem da ginecologia que era sua especialidade. Na décade de 1920, Martim Gomes escreveu vários livros com fundo psicanalítico: "La rêve et et selection des Idées"- 72 pag. 1927. "A criação estética e a psicanálise" de 193o. "As loucuras do dr. Mingote" 1933, livraria do Globo. "A flor de Tuna"1938. Estes livros tem todos algo com a psicanalise dos personagens. Marftim Gomes teve dois filhos médicos: o Dr. Apolo Correa Gomes, foi um excelente clinico e professor. E o Professor Fradique Correa Gomes que foi seu sucessor na cadeira. Nicanor Letti site: nicanor.letti@terra.com.

Efemérides da FM de 1898 até 1974

1898 -Fundação da Faculdade de Medicina e Farmacia de POA.
1899-Primeia abertura dos cursos
1900-Aquisição de casa, na rua da Alegria 50 (Gen.Vitorino)e os fundos da travessa 2 de
de fevereiro (hoje Av. Salgado Filho. E primeiro reconhecimento da Fac. pelo Governo Federal
1904- Formatura da primeira turma de médicos
1906- Priomeiro concurso para catedratico da FM (concurso do Prof. João Batista Marques Pereira) da cadeira de Hiistologia e Embriologia.
1909~Inauguração do Instituto Anatomico.
1910- Inauguração do Instituo Pasteur
1911- Inauguração do Instituto Osvaldo Cruz, (Laboratorio Central das Cliniucas)
1911- Lançamento da pedra fundamental do Edificio da Faculdade nol Campo da Redenção.
1912- Reforma dos Estatutos em vista da Lei Rivadavia
1916- Nova equiparação da Faculdade face a lei Maximiliano
1924- Inauguração do novo edificio da Faculdade no Campo da Redenção
1931-Federalização da Faculdade de Medicina
1936-Incorporação a Universidade de Porto Alegre fundada por Flores da Cunha
1937-Ampliação do Edificio da Faculdade
1940-Doação pelo Governo do Estado do terreno por ele adquirido em 1938 para a construção do Hospital de Clinicas
1943-Lançamento da pedra fujndamental do HCPA
1945-É iniciada uma nova fase na Anatomia Patologica no RGS com a ascenção à cátedra do Prof. Tibiriça que organiz0u e treinou uma equipe cuja atividade no ensino foi um marco em
nosso meio.
1947 -Reabertura da Biblioteca após reorganização iniciada em 1946
1947-Inicio das obras de construção do Hospital de Clinicas,
1952- Criação da Escola de Enfermagem anexa a Faculdade de Medicina (Lei 1254 de 4 de dezembro de 1950) funcionou ate 15 de julho de 1968, quando se tornou autônoma.
1954 -Convenio com a Fundação Rockefeller e com o grupo de pesquisas do Prof. Houssay que renovou o ensino e a pesquisa na Faculdade de Medicina, junto ao Departamento de Fisiologia.
1956 - Criação da cadeira de Pneumologia Clinica e contratação do Prof. Jose Fernando Carneiro, serviço que se instalou posteriormente no Pavilhão
Pereira Filho,
1958 -Doação da Fundação Rockefeller de 400.ooo dolares em equipamentos para renovação das cadeiras de Quimica e Fisica da Faculdade, que se tornaram Institutos.
E criação da Residencia Médica, introduzidas nas disciplinas dos Professores Faraco e Rubens
Maciel. Nas quais exigiam instalar cincuenta por cento da área em laboratorios clinicos.
1959-Renovação completa da Biblioteca m novas instalações, regularização do acervo
5em tecnicas novas com a doação da Fundação Rocfeller de 60.000 dolares e assinatura de periodicos mais importantes
1960- Criação do Instituto de Microbiologia
1961- Criação do Instituto de Cirurgia e reunião das cátedras para funcionarem em conjunto e onde se iniciou a cirurgia cardíaca no RS.
1968-Inauguração oficial do Hospital de Clinicas em 2 de abril de 1968.
1970-Criação da Empresa Pública pelo Governo Federal (Lei numero 5604 de 2.9.1970 para administrar o Hospital de Clinicas (Reitoria do Prof. Faraco).
1972-Reforma do ensino, criando a Departamentalização e Semestralização dos cursos medicos). Fundou-se o Instituto de Biocencias que anexou as cadeiras básicas e criou os oito
departamentos da Faculdade de Medicina do ciclo profissional.
1974- Transferencia da direção da Faculdade de Medicina para o Hospital de Ciencias.
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Doutorando em 1950-Luiz Carlos Meneghini

Ha poucos dias em visita à Alvaro Barcellos Ferreira, conversávamos sobre peculiaridades no ensino médico nas décadas de 40 e 5o. Minha propria presença agora na casa de Alvaro traduzia indissoluveis laços de amizade então formados entre professor e aluno, alimentados pela cordialidade e a cada dia renovados em trinta anos de convivio profissional. Em 1949 escolhi a 37 enfermaria da Santa Casa para realizar meus estagios em clinica médica. Ocupavamos uma estranha sala, abarrotada de camas e pacientes, com retratos pintados a óleo de antigos provedores e beneméritos da instituição pendurados em todas as paredes: tratava-se do Salão Nobre da Santa Casa improvisado em Enfermaria para atender as demandas da assistencia e o ensino. O catedrático não tinha gabinete próprio e sob o olhar impassivel dos retratados, sentado a beira de um leito ou numa cadeira tosca, Alvaro Barcellos Ferreira e Apolo Côrrea Gomes, familiarizava nossos ouvidos com as bulhas cardiacas. Recordo os colegas Rivadavia Correa Meyer, Mario Hotencio da Silva, Simão Lewgoy e a Elley Fernanda da Silva. Em 1950 fui para a Enfermaria 14 do Prof. Celso Machado de Aquino. Ao redor de pacientes hemiplegicos ou Parkinsonianos, lá encontrei Zaluar Campos. Alem da frequencia diária a esses dois velhos e queridos pardieiros. Foram Alvaro B. Ferreira, Ivo Correa Meyer, Luiz Sarmento Barata, Tauphick Saadi. E o paraninfa foi a Dra. Maria Clara Mariano da Rocha, figura exemplar e competente. Formados com Zaluar Campos alugamos uma sala no sexto andar do Edificio Cruzeiro do Sul. Eramos vizinhos do Prof, Celso Aquino, ele nos emprestava a sala de espera. Oriundos de uma faculdade pobre em recursos materiais e humanos, os colegas que comigo se formaram 16 se tornaram professores: Arnaldo Ferrari, Antonio Carapeto Fernandez,Carlos Dias Leite, Flavio Maciel de Freitas, Oscar May Pereira, Paulo Preto de Oliveira, Riograndino Denardin, Ruben Rodrigues, Valdir Mozzaquatro, Walter Zelmanovitz e Zaluar Campos. Nossa Faculdade não era somente o veneravel predio ao lado do Parque Farroupilha e como vivencia tambem o foram a Santa Casa, o Pronto Socorro, o Hospital São Pedro e o Sanatorio.
Nicanor Letti - nicanor.letti@terra,com



Ata da Fundação da Fac. de Medicina

Aos 25 dias do mes de julho de 1898, às 7 horas da noite, presentes na Secretaria da Escola de Farmacia, os srs. Lentes: Alfredo Leal, Arlindo Caminha, Carlos Carvalho Freitas, Silva Pereira, Christiano Fischer, Dr.Dioclécio Pereira, Dr. Dias Campos, Dr. Diogo Ferrás, Francisco Rocha, João Daud Filho, Dr Protásio Alves, Dr. Sebastião Leão, Dr. Serapião Mariante e Dr. Carlos Nabuco representado pelo Dr. Protasio Alves. O sr diretor da Escola de Farmacia, Alfredo Leal abre a sessão. É lida e aprovada a ata anterior. O sr. Diretor de acordo com a resolução tomada na última sessão da Congregação lê o seguinte relatório (........) Proponho pois que sejam as seguintes bases para a união da Congregação da Escola de Farmácia com o corpo docente do Curso de Partos, com o fim de fundarem a Faculdade de Medicina e Farmácia de Porto Alegre. 1) A diretoria da Escola de Farmácia renunciará nesta data o seu mandato sendo imediatamente eleita outra cuja missão será administração da Faculdade de Medicina e Farmacia de Porto Alegre, que hoje fica de fato fundada. 2)Enquanto não se instale a Faculdade de Medicina, os cursos de Farmacia e de Partos continuarão a ser dirigidos de acordo com os estatutos e leis internas que atualmente os regem, ficando entretanto a Congregação da Faculdade o direito de confeccionar, quando lhe convier, leis básicas. 3) o programa do curso de Farmacia não sera modificado, salvo provada a inconviniencia de alguma matéria nela existente. 4) Dada hipótese de não ser instalada a Faculdade ficará sem efeito este acordo, continuando a Escola de Farmacia a sua vida autonoma e independente revertendo para a mesma o seu patrimonio. Porto Alegre, 25 de julho de 1898. Ass. Alfredo Leal. -- São aprovadas por unanimidade de votos e as bases propostas pelo Sr. Diretor para a união da congregação da Escola de Farmacia e do Curso de Partos com o fim da Fundação da Faculdade de Medicina e Farmacia de Porto Alegre. O Sr Diretor resigna o cargo assim como toda a Diretoria. Procede-se a eleição, que deu o seguinte resultado: Para Diretor: Protasio Alves 12 votos - Dioclécio Pereira 11 votos. Para vice diretor Alfredo Leal, 11 votos e Dioclecio Pereira 2 votos.O Sr. Alfredo Leal convida o Dr. Protasio Alves a assumir o cargo. O Dr. Protasio Alves assume o lugar e pede ao sr Carvalho Freitas que continue no lugar de secretário, agradece aos companheiros a sua eleição, hipotecando todo o seu esforço em prol da Faculdade de Medicina e Farmacia de Porto Alegre que, proclama fundada neste momento. O Sr. Diretor, considerando de grande necessidade de um secretario-geral, no periodo de ´propaganda da Faculdade de Medicina e Farmácia de Porto Alegre, nomeia para este lugar o Dr. Sebastião Leão. Não tendo mais nada a tratar, encerra a sessão. Ass. Carvalho Freiras -secretario.Nicanor Letti


O estudante de medicina- Sergio Ortiz Porto

A chegada é sempre igual. O sujeito vem meio sestroso, meio desconfiado, pelos cantos....Mas fomos entrando. Ser médico no nosso raciocinio mágico era um avental branco. Não era. Eram os cadáveres congelados, era a microscopia das glandulas, os germes e os vermes. Não houve nem introdução; a verdade foi logo chegando. Sem maior aviso começaram a nos ensinar nomes de mil buraquinhos, saliencias e reentrancias de um corpo que antes parecia tão simples: cabeça, tronco e membros. (A Anatomia Humana é o primeiro pontapé nas ilusões). Nos vínhamos de muitos livros pequenos e nos deram uns poucos livros grossos. Tudo bem (menos matéria, parecia mais facil). Não era. Era uma armadilha: queriam que soubessemos a inesgotavel variabilidade do Ser Humano. Só. Assim como se nada fora......E assim--sem mais nem menos -- A Escola de Medicina abria-nos portas e nos deixava na prisão das suas veias, dos seus músculos, do pus, do sangue e dos terrores. Pelo qual deviamos caminhar. É claro que aqueles hospitais terriveis do fim do século que os filmes escuros nos historiavam não existiam mais. Naquele periodo - 55 a 62 - a Escola já ingressara na ante-sala da Medicina Moderna. Foram criadas (recriadas?) as disciplinas Fundamentais: a Clinica, a Pediatria, a Obstetricia e a Cirurgia. E dois professores - Rubens Maciel e Eduardo Faraco -iniciavam um novo sistema de treinamento: a Residencia Medica. Darcy Ilha realizava as primeiras incursões sobre os interiores do coração vivo; Ivan Faria Correa operava pulmões inacreditáveis; José Job começama a olhar o esôfago e estômagos com periscópios médicos; e, la na Enfermaria 33, o Prof. Barata seguia uma sábia e elegante carreira. Vai daí tudo parecia suficiente. Mas não era. Nos vinhamos de ruas onde o medo era pouco. Podia-se caminhar por elas! Era como se tudo estivesse, de repente, acontecendo no Brasil. Mario de Almeida nos introduzia o gosto pelo Teatro Popular. Jorge Amado dava o seu maior (e último!) grande grito com Gabriela. Não nos ensurdecia o epiléptico barulho musical importado. Nos chegava-nos com o Chico, com o Tom e o Jorge Bem. Do velho-moço Vinicius......Nos exportavamos. Chegavam conosco Caetano e Betânia; Noel Rosa e Caimy continuavam. E, portanto, nos sobrava espaço para ouvir. Era muito alegre! Se voces sentarem um dia com esse calmo e sofrido conhecedor da noite porto-alegrense -o Carlilnhos do Treviso - ele lhes dirá sem vacilar que a mais esfusiante noite da cidade foi 57 a 62. E, então, não há só saudosismo. Há um claro testemunho. Perguntem. Ele dirá. E não havia a droga. Mas a escola tambem não deixava por menos. À sombra da euforia cientifica surgiram alguns jovens professores - Tuiskon Dick, Nilo Medeiros, Oli Lobato, Nelson Porto, Carlos Grossman, Mario Rigato e outros - que andavam pelos trinta anos de idade, e , até por isso, se pareciam conosco. Não eram barbudos, nem proverbiais. Portanto nos deixavam a vontade no mundo daquelas imensas paredes, arcos, vitrais, colunas, escadarias, mármores cobras de bronze, mofos e teias. A velha Escola vestida de novos métodos e técnicas, acompanhada pelos seus jovens amigos, maquilada, tendo feito uma plástica, queria ser - e era bela e absorvente. Mas não suficientemente. Nós vinhamos da Carta do Getúlio. Lacerda esbravejava. Juscelino ria. Nos queriamos (vejam só) as reformas de base. A Eletrobras. A Petrobras. Da nossa intensa vida politica, não fazia parte é verdade - o óbvio - a luta pela Democracia. Em 1945 nos éramos apenas garotos. Portanto nós tinhamos mais que uma vaga lembrança do que fosse a ausencia do que nos tínhamos. E, pois, nem entendiamos muito bem por que o Prof. Othelo Laurent, no cientifico, nos ensinava que o grande crime do Estado Novo fora ter privado toda uma geração da atividade politica. Só em 1961, quando um pitoresco senhor chamado Janio Quadros se atirou do poder é que nós soubemos um pouco mais. É verdade que o aprendizado todo durou apenas uma semana. Tempo, certamente, insuficiente para um aprendizado real. Por essa época o Brasil foi bi do mundo no futebol. Surgiu Pelé - o gènio - campeão do mundo aos 17 anos, idade que nem eleitor era. Por isso, talvez, agora, não julque necessário. Em tenis Maria Ester Bueno foi tricampeã do mundo. E o pequeno Eder Jofre estraçalhava caras pela terra toda. Por aqui, Erico Verissimo havia terminado "O Tempo e o Vento" não só para nós mas para muitos outros povos. Parecia que em todas as áreas - na literatura, na arte, na musica, no esporte e no etc. - o Brasil havia se transformado num exportador de Talento. O futuro parecia ter chegado. Parecia......era tudo uma grande vida de estudante. O futuro está sempre chegando.Até para a velha Escola de Medicina. É preciso estar sempre começando, retocando, polindo, refazendo, voltando, indo, parando e prosseguindo.Só não é permitido cansar. Mas que aquele foi um periodo fantastico, ah! isso foi! Aos que não souberam ve-lo, ouvi-lo, cheira-lo, tocá-lo; aos que nada-ensinou; aos que sairam vazios; aos que não foram jovens na juventude; a esses só lhes resta relinchar. Pois que relinchem. Nicanor Letti site nicanor.letti@terra.com.br.






Minha Faculdade - Cyro Martins (1978)

Quando entrei para a Faculdade de Medicina de Porto Alegre, em 1928, a Escola era jovem, tinha apenas 30 anos. Eu, rapazote, só olhando em frente, não atinei com esse detalhe. No entanto era importantissimo. A minha Faculdade era tão adolescente quanto eu, como individuo, com 19 anos. Não obstante, sobrepondo-se a obstaculos sérios, inclusive oficiais,marchava acelerada e decidamente à maturidade. Ate la construira sede propria, definindo desse modo concreto, entre os demais estabelecimentos de ensino superior da Capital e do Estado a sua identidade física. Referindo-se a esse fato Miguel Couto em 1927 disse textualmente: "Vós andastes muito depressa", Eu só entraria para a Faculdade no ano seguinte, mas já andava por lá, bisbilhotando. Essa conferencia do renomado professor foi no salão nobre, por ocasião dum congresso brasilleiro de medicina, congresso esse, que deu pano para as mangas do ponto de vista politico. O ano de 1927 completava os vinte e cinco do governo do Borges de Medeiros. O Pacto de Pedras Altas com o qual se pôs fim à revolução de 1923, introduzira alterações importantes na constituição do Estado "a mais sábia do mundo" mas ainda ficaram intatos muitos tópicos que deveriam ser modificados. Entre eles o referente a liberdade profissional derivada diretamente do positivismo de Castilhos. Pois bem, em pleno congresso , surgiu uma moção do dr. Simões Lopes , de Pelotas, contra a liberdade profissional. Foi um Deus nos acuda. O borgismo alçou-se. Capangas armados invadiram o plenário. A estudantada estava como queria, no seu clima de protesto. Na hora do fervo mesmo, quem presidia a sessão era o prof. Fernando Magalhães , outra figura proeminente da medicina nacional que viera do Rio , junto com Miguel Couto. Para serenar os animos, ele pediu aos estudantes que se retirassem do recinto. Houve protestos mil. O efeito foi cômico e os rapazes começaram a sair para o saguão, onde, em seguida se exaltaram outra vez. Fernando Magalhães deixou a presidencia e foi atras deles. No saguão, trepou numa cadeira e, orador como era, conseguiu mais ou menos serenar os animos dominar as labaredas da turba-multa. Nesse meio-instante surgiu na porta do saguão o proponente da moção revolucionária. Bem, nunca mais, nos seus oitenta anos, a Faculdade de Medicina viveria outro momento de vibração como aquele. O dr. Simões Lopes foi carregado nos ombros dos jovens, escadaria abaixo, aos gritos de vivas e morras proprios de tais ocasiões. Hoje uma manifestação semelhante àquela não seria possivel. Sim, lógico, pelo sistema imperante, pensará o leitor. E eu acrescentarei algo mais: por que a nossa escola perdeu sua identidade ao sair da sua sede e esparramar-se em diversos prédios, de tal maneira que a gente, não estando muito por dentro do que se passa, não acha a Faculdade. O maleficio que essa descaraterização esta acarrentando, para a formação médica dos alunos da Faculdade de Medicina já se faz notar. Apesar de jovem, em 1928 a Faculdade mostrava-se vivendo um processo de maturação. Haja vista os nomess que se destacavam entre os professores. Sem falar em Sarmento Leite, que é um caso à parte, lembrarei Annes Dias, Otavio de Sousa, Aurelio Py, Guerra Blessmann, Martim Gomes, Luiz Guedes e Fabio de Barros. Em 1928 Annes Dias já desfrutava de um nome nacional dentro da medicina, graças aos seus livros de clinica médica, pois chegou a editar uma serie de cinco volumes. Sua coragem de enfrentar as dificuldades provincianas para iniciativas dessa natureza valeram-lhe inúmeras criticas, a maioria delas por inveja. Annes Dias era um mau escritor, mas ia para frente, escravatara bibliografia do assunto e defendia ardorosamente suas idéias, pois era um homem de idéias, pensava, sabia arquitetar hipóteses cientificas e se entusiamava num assunto. Como a úlcera duodenal foi um exemplo entre outros que o impolgava. As analises de laboratorio eram seus interesses ao lado dos Rx, em desenvolvimento. Foi amigo dos politicos da época. E Flores da Cunha em 1934 o fez deputado federal e Getúlio lhe presenteou a cátedra da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, que vagara com a morte de Miguel Couto. Aurélio Py era de temperamento diferente dos seus colegas clinicos. Expansivo, arrebatado, politico borgista e grande desportista. Quando chegou a hora de me matricular na Faculdade de Medicina, eu estava seco, não tinha tostão. Falei com o Lino de Mello e Silva que viria a ser seu genro e ele comunicou ao Aurél.io minha situaçao. No outro dia o Prof. Aurelio Py levou-me à Secretaria do Interior e saí de lá com a matricula garantida pelos seis anos de estudos médicos. Viva a gauchada. Se não fosse o gesto de Prof. Aurélio Py, não sei, francamente o que seria do meu destino.Nicanor Letti´- site: nicanor.letti@terra.com.br.

O Prof. Fabio N. Barros

O professor Fábio Nascimento Barros, nasceu em Uruguaiana 28 de agosto de 1881, foi médico, cronista, jornalista, critico de arte e colaborador da imprensa gaucha desde 1900. Foi o primeiro catedrático de Fisiologia da Faculdade de Medicina e Farmacia .Em 17.o2.1908 submeteu-se ao concurso para catedrático de Fisiologia. E foi aprovado com distinção. Na última prova: Sobre a Fisiologia do sistema nervoso foi pública, estiveram presentes o presidente do Estado Dr.Carlos Barbosa, tomou acento entre os profs. Serapião Mariante e Candido Reis fiscal do Governo da União. Organizou o ensino e viajou para a Europa e trouxe uma série de instrumentos para as aulas práticas, guardados até hoje no pequeno museu da Fisiologia. Essa cadeira médica ainda permanece no prédio da Rua Sarmento Leite, apesar da nova sede das outras disciplinas estarem no campus médico. Escreveu e publicou em livretos pela Livraria do Globo os seguintes assuntos: "Sobre a existencia de uma síndrome choroide autonoma" "Hemanestesias Organicas - síndrome talamico" e "Fisiologia dos plexos coroides". Escreveu uma ópera "Esmeralda" e em fevereiro de 1898, foi cantada por Stela Teixeira no Teatro São Pedro, com musica de Fabio de Barros e João C. Fontoura e libreto de V. Oliveira, Arnaldo Damasceno Vieira e Velasco Vereza. Escreveu " O ritmo da arte", uma conferencia em 1908, "A liberdade profissional no RGS - a medicina e o positivismo" foi uma conferencia. Saudou com um notavel discurso o professor frances em visita a Porto Alegre "Saudação ao Prof. George Dumas na Fac. de Medicina" em 1917. Escreveu e publicou o discurso Abertura oficial dos cursos, em 1924. Em 1944 escreveu "Colheitas" cronicas e comentarios com 327 páginas. Usava em artigos de jornais e outros escritos o pseudonimo "Severiano Serra". Escreveu Paolo de Gouvea do "Correio do Povo" a saida de Olinto de Oliveira que comentava as artes e a musica, surgiu seu sucessor Fabio de Barros, um grande conhecedor da música. Tornou-se famoso apos de uma de suas criticas ter atacado a obra de Puccini, a quem classificou de compositor mediocre, e manteve acesa polemica, mostrava com cliches e pautas do romantico criador de "La Boheme" e "Tosca". Foi um latinista eximio e declamava Cicero, Ovidio e Virgilio. E um dia a veneranda Dona Dolares Alcaraz Caldas, convidou-o para dirigir o jornal. Fabio de Barros assumiu a direção do "Correio do Povo". Ele faleceu em 5 de março de 1952. Tinha 71 anos. Nicanor Letti. site: nicanor.letti@terra.com.br

O Prof, Paulo Tibiriça

Em 15.12.1944, Paulo de Queiroz Telles Tibiriça foi aprovado em concurso público como catedrático de Anatomia Patológica da Faculdade de Medicina de Porto Alegre. Terminava uma discussão sofrida e decisões da Congregação sobre os possiveis candidatos: Heitor Cirne Lima e Waldemar Castro. Tibiriça formado pela Faculdade de Medicina e Cirurgia de São Paulo apresentou experiência e um curriculo notavel. Sua tese inaugural foi sobre a "Arteriosclerose Bovina", aprovada com louvor e grande distinção. Foi logo nomeado segundo assistente da cadeira da Faculdade Paulista, sob regime de tempo integral em o8.08.1927. Em 1935, a pedido organizou e ensinou na Faculdade de Medicina de Curitiba. E fez concurso de Livre-Docencia e foi aprovado. E logo em seguida apresentou-se na Faculdade em São Paulo e tambem fez o concurso de Livre-Docencia, tinha, portanto o doutoramento e duas livredocencias. Mas em 1944, a Congregação da Faculdade de Medicina de Porto Alegre, lançou o edital para concurso de Anatomia Patologica. Inscreveu-se no concurso e a congregação analisou seu curriculo e aprovou sua candidatura em 15.12.1944. Apresentou a tese sobre "A mucosa dos seios da face em individuos sadios mortos por violencia". e foi aprovada e até hoje muito apreciada pelos Otorrinos. E foi aprovado no concurso e em 1945 ja inciara a organização da cadeira em Porto Alegre. Fora fundada pelo Prof. Gonçalves Vianna ( genro e biografo do professor Olinto de Oliveira). Ao assumir a cadeira Tibiriça organizou o ensino e atraiu uma excelente pleiade de assistentes e disciplinou-os sobre os horarios e logo tornou-se a atração dos estudantes, e gostavam da "sebenta" escrita por ele para facilitar o conhecimento da patologia, mas chamava atenção era a qantidade de material que conseguira para o estudo e as excelentes aulas praticas sempre acompanhadas por um assitente, e em numero reduzido, e tudo organizado e a dureza das provas. Era uma cadeira onde se aprendia a ser médico. O diretor Guerra Blessmann dizia: "Tivemos em nossa história um grande cirurgião que revolucionou o ensino: Carlos Wallau e agora outra revoluçao no ensino da patologia com Paulo Tibiriça" Os alunos formados em 1949 elegeram Tibiriça como seu paraninfo, Foram seus assistentes: Paulo Frederico Becker, Gorky Mecking de Lima, Raul Kreps, Hugo Haase, Arisoli Fagundes e Carlos Wallau(neto) . Aposentou-se da FMPA em 05.05.1962. Nicanor Letti - site nicanor.letti@terra.com.br